pariu, bateu, que balance

"Quem pariu e bateu, que balance!" ouvi essa expressão pela primeira vez da minha finada avó materna, ela pariu, bateu e balançou dez filhos. Desde que Loreta nasceu pessoas me perguntam sobre um texto de relato sobre a experiência de mãe, talvez por demorar a entender a rotina da maternidade e de como esse mundo funciona, ou até por precisar viver um pouco mais de tudo pra poder falar sobre, eis que surge o requisitado texto, requisitado principalmente pela minha necessidade de denunciar, de desabafar, de falar, de gritar sobre o puerpério, sobre o que acontece depois de parir.

A natureza, a ciência, deus, não sei, mas em algum desses fóruns foi decidido que a mulher seria responsável por gestar uma nova vida até ela estar pronta pra vir ao mundo e que essa nova vida se nutriria da mulher pra sobreviver, parir e amamentar é uma exclusividade da mãe (entenda, parir e amamentar, o resto não só pode como se deve dividir). Mas a sociedade, a desigualdade de gênero, as leis, o machismo naturalizado decidiu sem combinar com as mulheres que além de parir e amamentar, mãe é foda (mãe se fode), mãe é mulher, que consegue fazer várias coisas ao mesmo tempo, então mãe pode fazer tudo: trocar fraldas, dar banho, lavar e passar as roupinhas do bebê, acordar várias vezes de madrugada, acalentar quando chora, cuidar integralmente do bebê, e se ela quiser se alimentar bem e ter casa limpa, ela mesma pode fazer, afinal é tudo a mesma coisa, não é mesmo? (a tal dupla jornada que essas feministas chatas ficam falando)

Cada um tem sua percepção de mundo de acordo com sua formação, o meu nível de consciência me faz questionar muita coisa. Acredito que muitas mulheres de necessidades diferentes possam escolher a dupla jornada (cuidar do bebê e da casa, no caso tendo o companheiro o responsável pelo trabalho fora de casa), mas tem as que não escolhem, as que não querem, só que o mundo já tá todo orquestrado pra que nós apenas aceitemos essa condição e pior, sejamos convencidas que é isso mesmo (então quando o bebê tá prestes a dormir a gente calcula o que faz primeiro, se lava prato, lava roupa, ajeita comida, arruma a casa, ou só senta e respira um pouco, ou faz coco, ou toma um banho e come alguma coisa). Quem trabalha e tem direito a licença maternidade, vive o momento da dupla jornada, como ainda não voltei não sei o que é viver a tripla: filho, casa e trabalho.

A licença maternidade tem dois lados. É o tempo pra você que trabalha fora tem de iniciar um vínculo de amor com seu bebê, de cuidar, de conhecer, de se emocionar, de aprender muito, mas por outro lado os pais não tem esse direito, a lei diz que apenas a mãe precisa ficar em casa pra cuidar do bebê, então subentende-se que cuidar do bebê e da casa é tarefa de quem tá de licença, por que quem fica em casa não faz nada, não é mesmo? (já me chamaram até de vida boa, A LICENÇA MATERNIDADE É MACHISTA). Por várias vezes me senti ansiosa pra retomar minhas atividades quando Loreta mal tinha nascido, me senti egoísta, ela tão pequenininha e dependente, precisava de mim, entendi que devia viver esse momento mesmo que relutando contra o que essa licença carrega junto com o direito de viver o bebê e agora que vou voltar pra minhas atividades já não consigo imaginar minhas horas longe dela. 

Uma amiga me alertou assim que contei da gravidez: você vai sentir todo peso do machismo quando for mãe. Não duvidei, mas queria saber realmente como era isso e sim, vejo machismo em tudo desde que Loreta nasceu, a gente escuta muita coisa, mas talvez doa mais o que ninguém fala, o tal do machismo velado, ninguém fala, mas mães não servem pra vida pública, elas pertencem a esfera privada: o lar e os cuidados com o bebê. Ninguém fala, mas é melhor ficar em casa, mãe pra sair de casa é um transtorno, demora pra sair, na rua tem que botar peito pra fora, tem que trocar fralda, o bebê chora, mãe e bebê incomodam, é muito melhor ficar em casa, mas ninguém fala isso, assim explicitamente, a gente só sente. 

Mãe é proibida de se divertir, se teve filho é porque escolheu essa vida e sabe mesmo o que é pior? O nosso sentimento de culpa, a gente acaba achando que é melhor não sair, a gente acaba achando que é melhor não se expor e nem expor o bebê, a gente entra na onda desse povo que acha que mãe não é gente e vai se limitando automaticamente e quando você nem se da conta, você acha que foi uma escolha sua. E esse sentimento nenhum homem nunca vai conseguir entender e nem uma mulher que não tem filhos, é o sentimento de que a gente é obrigada. 

Loreta está prestes a completar seis meses, na medida que o bebê vive suas fases, a gente como mãe também vai evoluindo, vai entendendo, ao mesmo tempo a gente também fica imersa a diversas limitações. A maior delas sem dúvida é a perda da individualidade, aquilo que a gente é independente da condição de mãe, eu não sou só a mãe de Loreta, sou mãe de Loreta apenas há uns meses, eu sou muita coisa, sempre tive muitos planos, mas de repente o mundo me diz que eu sou apenas mãe de Loreta e eu vou me convencendo disso até tomar a decisão de recuperar minha individualidade esquecida, como meu gosto por escrever e de pintar a unha pra ela crescer. Mulheres, não esqueçam de vocês!

Vou contar uma coisa, a gente só precisa de companheiros/companhias solidárias que entendam nosso cansaço, nossa exaustão, nossas limitações, anseios, ansiedades, necessidades e não nos julguem, apenas façam da vida de mãe a melhor coisa que ela pode ser, com menos culpa e menos rotina chata. No final tudo sempre esbarra na questão de classe, se eu fosse contemplada por mais alternativas (licença maternidade e paternidade iguais, sociedade menos machista, dinheiro pra pagar alguém pra os serviços domésticos) minhas problematizações (pariu, bateu, que balance) tivessem outro viés, mas registrei aqui minha maternidade real e ela tem problematizações mas também transborda de amor pela minha bebê que é a melhor coisa que aconteceu na minha vida. 

Olha, gente, é melhor não ter filho, é melhor acordar tarde quando pode e sair pra encher a cara e ficar de ressaca e estudar tranquilamente e tanta coisa que quem não tem bebê pode fazer sem responsabilidade de ter alguém que dependa de você, mas sem ela eu não sei mais ser. 






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