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elementar

Deito no teu peito e fico cheia, transbordo, existe ali alguma proteção de que o encaixe que faz demonstra que tenho um lugar pra repousar. Me perco no tempo-espaço, me desconecto e tanto faz se era aqueles dias que não se tinha tantas responsabilidades, se é dia de hoje, existe algum conforto de me perder nesse deitar. A vida é pesada, Lúcio. Ela é uma luta constante. Ela é uma corrida. Ela é amarga. Ela é cruel e tinhosa. A gente tem é que ser artista, fazer poesia, fingir demência, deitar no peito e respirar. Sinto teu cheiro e sossego, flutuo em alguma leveza de estar ali, não importa o caos, não importa as taças quebradas, não importa o perigo das ruas à noite. A vida é muito pesada, Lúcio.  A vida é bem pesada, precisa decantar o que é elementar. Deitar no teu peito é elementar. Me encaixar no teu corpo é elementar. Sentir teu cheiro é elementar. Fingir demência é elementar. O resto não é elementar. Te amo, Lúcio.

a hora da virada

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Amigas e amigos, queridos e queridas conhecidas, de longe, de perto, de ontem e de hoje, faz um tempo que não paro alguns instantes pra escrever sobre o que penso dos acontecimentos políticos, me acovardei diante das atrocidades e confesso que a desesperança tomou conta de mim, acontece que estamos às vésperas de um processo eleitoral histórico e eu fui tomada por um sentimento de renovação e de esperança que precisa ser compartilhado a todos e todas que eu possa endereçar. Depois do impeachmeant de Dilma, da agenda de retrocessos do desgoverno Fora Temer, da prisão de Lula, dessa crise que a gente atravessa, eu voltei a acreditar que a gente pode virar o jogo, que a gente pode garantir a quinta vitória ao povo brasileiro nas urnas. Quero falar um pouco disso aqui e fazer um chamamento aqueles que querem um Brasil feliz de novo.
Eu gosto de falar a verdade, falar o que eu vejo, defendo o que acredito e tenho lado. Ontem foi realizada a convenção da Frente Popular de Pernambuco, bateu o…

na sala de espera

Na sala de espera da prova prática do DETRAN vejo apenas duas placas: "proibido uso do celular", "estamos monitorando com câmeras", procurei alguma que falasse da obrigatoriedade de manutenção de um ambiente tenso, ansioso e acima de tudo sem interação. Eu sempre fui assim, pode ser meio que loucura minha, mas não consigo permanecer em nenhum ambiente que não possa interagir com as pessoas próximas, parada de ônibus, fila de banco, jogo de futebol, bar, naturalmente todos nós deveríamos nos falar, não? Pela reação de algumas pessoas ao meus estímulos, acredito que não. Já levei cada toco, mas não desisto, não deixo de falar, prefiro ser louca, ainda mais em uma sala de espera que o nervosismo tomava conta do ambiente, precisava de descontração, não seria possível que ninguém ali fosse como eu. 
Fui lá, sua primeira prova? é. mas é tranquilo, lembrar de ligar a seta, não colocar em segunda marcha pra não ultrapassar a velocidade e ficar calmo. Pensei, poxa, seguro …

educação, enganação, conformação

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Tava numa lojinha e reparei num compasso e numa régua redonda meia lua que estavam pendurados, materiais da escola em algum momento da minha vida, me esforcei pra lembrar pra que serviam, como usava e não consegui recordar, acho que não aprendi nada porque tem muitas coisas da escola que eu lembro muito ou posso ter aprendido momentaneamente, mas se perdeu na minha memória as suas respectivas utilidades. Além da geometria, várias outras coisas ficaram no esquecimento das diversas matérias escolares, assim como da própria graduação. 
Fiz a reflexão que mais da metade de tudo que já aprendi até hoje, não foi na sala de aula, aprendi sobre como se sobrevive na rua com gente que nunca foi de frequentar escola ou pretensão de entrar na faculdade e aprendi sobre o que era ter consciência de ser cidadã na militância da luta política. Pois bem, nunca estudei em uma escola pública, mas já tive a oportunidade de entender como elas funcionam através do movimento estudantil e sempre me questiono q…

De qual projeto você faz parte?

Karl Marx, aquele barbudo legal que não é papai noel enxergou com clareza do que se nutria as relações sociais: "a história da sociedade até os nossos dias é a história da luta de classes". Obrigada, Marx, por nos ajudar a ler o mundo com seus olhos. A nossa história é luta de classes, de oprimido e de opressor, de patrão e trabalhador, de esquerda e de direita! Cada lado tem um projeto de sociedade e eu preciso te perguntar de qual projeto você faz parte no meio dessa conjuntura de ódio, de desesperança, de infelicidade.
Não se enganem, chegamos onde estamos porque nós, que sempre perdemos historicamente, que sempre sofremos e ganhamos a vida a vendendo na base do suor, começamos a ter mais força: elegemos um projeto diferente em 2002, entramos nas universidades, empoderamos as mulheres com programas sociais, tínhamos empregos, conquistamos a perspectiva de sermos mais felizes, esse projeto foi golpeado com o impeachment ano passado e de lá pra cá estão acabando com nossas…

o nego, minha menina, meu velho, a senhora, o avô, a vida

O nego chegou de manhã me beijando com gosto de cachaça, dizendo que me ama, enchendo a mão de peito. Depois acordei com a menina dos meus olhos chorando e sorrindo, me pedindo o colo que é só dela. Meu velho depois me ligou falando com voz alegre que conseguiu a aposentadoria e que a vida ia melhorar. No caminho do trabalho uma senhora desconhecida me fez renovar a esperança na bondade das pessoas aleatórias, mas no final do dia o avô do nego (quase pai) se despediu da nega veia, das filhas, dos netos, dessa breve vida depois de muita dor, ele sabia que viver era bom e não queria ir, mas quando a hora da partida chega, a gente só tem que ir. Fechei os olhos e agradeci ao nego, a minha menina, ao meu velho, a senhora desconhecida, ao avô por me fazer sentir a vida. Porque o que vale na vida é a mão no peito, minha menina no colo, meu velho feliz, a fé na bondade das pessoas, a certeza que a vida finda mas que a gente ainda tá aqui.

ronco do meu pai e reza da minha mãe

Vinícius de Moraes em uma crônica de homenagem a seu pai disse que “quem nunca teve um pai que ronca não sabe o que é ter pai”, eu não sei em que momento da vida eu entendi o que era ter pai, mas desde que me entendo por gente sei que o ronco que ouvia do quarto ao lado era dele. Meu pai, que não é novo nem velho, mas já viveu dois infartos pra contar história, sempre precisou cuidar da saúde, por mim e pelo meu irmão ele já se dedicou diversas vezes, mas já desistiu também pela justificativa de que a vida precisa ser vivida e eu embora concorde, queria que ele se cuidasse também, pelo menos o suficiente pra que não tenha mais nenhum infarto e que nada de mal lhe aconteça e que viva pelo menos uns 200 anos, bom, em uma dessas necessidades de muito cuidado, nada era mais angustiante do que passar na porta do quarto e não conseguir ouvir o ronco dele, eu ficava na porta, pregava a orelha e até prendia a respiração, só saia de lá e conseguia respirar de novo quando ouvia o confortante ro…