Venâncio surgiu na minha frente e imediatamente me fez sentir coisas, como um frisson tomou conta de mim, não sabia seu nome, seu endereço e sua procedência, nem pude ver seus olhos por conta da lupa escura que ornava o rosto, mas soube naquele instante que ele era bom. Nos encontramos. Pensei que fosse o início de uma história de amor, desejei que fosse, mas não foi, fomos nos desencontrando aos poucos.
Pude então ficar livre para escrever outras histórias, várias, a maioria completamente inventadas para passar o tempo, vivi dramas, romances, decepções, paixões, cheguei até a pensar que tinha vivido a maior delas, cheguei até a ter um filho e mesmo assim nunca o perdi de vista, estava perto e muito longe também.
Vivemos distantes, desejei algumas vezes que a história que começou no nosso encontro ainda pudesse existir, resistir aos desencontros, as outras histórias, minhas, dele, mas o desejo parecia pecado, crime ou ilusão e então forçava o esquecimento, desistia como sempre. Sempre faltou coragem de querer e então sempre faltou fé, não era pra ser e por isso não foi, me conformava. Mas tinha alguma coisa que permanecia.
Se não fosse aquele poema "doce", se não fosse a sensibilidade e intensidade, se não fosse aquelas memórias de "corpos, cheiros e paladar que causam efeitos de décadas" talvez eu não achasse que deveríamos nos reencontrar, o que não era o caso, talvez eu ainda tivesse fé em silêncio, em segredo. Venâncio causava frisson em mim todas as vezes em que pude vê-lo enquanto estivemos afastados: presença perturbadora, olhar terno e extasiante, não tinha como evitar ou controlar.
Depois de muito tempo nos reencontramos.
Era ele quem eu procurava ou esperava esse tempo inteiro sem saber enquanto eu me ocupava em outras histórias de tentativas e erros, ele "chegou" de novo e eu não soube durante todo esse tempo mas precisava dele pra ser mais eu, pra ter paz, pra ser feliz.
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