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ronco do meu pai e reza da minha mãe

Vinícius de Moraes em uma crônica de homenagem a seu pai disse que “quem nunca teve um pai que ronca não sabe o que é ter pai”, eu não sei em que momento da vida eu entendi o que era ter pai, mas desde que me entendo por gente sei que o ronco que ouvia do quarto ao lado era dele. Meu pai, que não é novo nem velho, mas já viveu dois infartos pra contar história, sempre precisou cuidar da saúde, por mim e pelo meu irmão ele já se dedicou diversas vezes, mas já desistiu também pela justificativa de que a vida precisa ser vivida e eu embora concorde, queria que ele se cuidasse também, pelo menos o suficiente pra que não tenha mais nenhum infarto e que nada de mal lhe aconteça e que viva pelo menos uns 200 anos, bom, em uma dessas necessidades de muito cuidado, nada era mais angustiante do que passar na porta do quarto e não conseguir ouvir o ronco dele, eu ficava na porta, pregava a orelha e até prendia a respiração, só saia de lá e conseguia respirar de novo quando ouvia o confortante ro…

pariu, bateu, que balance

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"Quem pariu e bateu, que balance!" ouvi essa expressão pela primeira vez da minha finada avó materna, ela pariu, bateu e balançou dez filhos. Desde que Loreta nasceu pessoas me perguntam sobre um texto de relato sobre a experiência de mãe, talvez por demorar a entender a rotina da maternidade e de como esse mundo funciona, ou até por precisar viver um pouco mais de tudo pra poder falar sobre, eis que surge o requisitado texto, requisitado principalmente pela minha necessidade de denunciar, de desabafar, de falar, de gritar sobre o puerpério, sobre o que acontece depois de parir.
A natureza, a ciência, deus, não sei, mas em algum desses fóruns foi decidido que a mulher seria responsável por gestar uma nova vida até ela estar pronta pra vir ao mundo e que essa nova vida se nutriria da mulher pra sobreviver, parir e amamentar é uma exclusividade da mãe (entenda, parir e amamentar, o resto não só pode como se deve dividir). Mas a sociedade, a desigualdade de gênero, as leis, o …

reviravolta

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da primeira vez que dediquei linhas neste mesmo espaço ao maldito escorpiano não imaginava que minha vida seria colocada de cabeça pra baixo, hoje depois de um tempo que nunca foi contabilizado ao certo, tenho plena consciência da reviravolta que o meu mundo deu. astrologia, macumba, nem simpatia tem a ver com nós dois, somos feitos de racionalidade e pitadas de poesia como sempre quis e nunca sonhei, depois que você escolhe racionalmente alguém é fácil respirar fundo e fazer balanços diários do que realmente vale à pena, nós valemos à pena e ainda que os 4kg mais preciosos da vida da gente seja a causa, ela não tem nada a ver com o que tô falando. tô falando de ficar te olhando dormir e te achar tão bonito quanto aquele sorriso em frente à lagoa que é só meu e guardo a sete chaves na memória do meu computador, tô falando disso e de tantas outras coisas que valem à pena e que são só nossas e que dispensam registro... foi sem dúvidas a melhor reviravolta da minha vida, ela me trouxe al…

às vésperas de loreta

O aumento da frequência e intensidade das dores no meu ventre, minhas costas e minhas pernas anunciam a proximidade da tua chegada, é de uma indizível emoção o fato de existir um bebê dentro de mim prestes a vir ao mundo, até um dia desses não tinha nada, além de um órgão oco e agora loreta. É o milagre da vida, meus amigos, já pensaram com profundidade sobre ele? É de encher os olhos de lágrimas e não entender muito bem como isso acontece, apesar de todas as explicações da ciência. E fico nesses dias que te antecedem a imaginar: qual dia vai escolher pra nascer? quantas horas de dor eu vou passar até conseguir te ver? careca ou cabeluda? pretinha ou branquinha? já vem com dobrinhas? e como vão ser as bochechinhas? vai ter choro gasguita, irritante e desesperador ou vai chorar que nem boneca? e os olhos? como vão ser teus olhos? vou me apaixonar de imediato? vamos nos conquistar aos poucos? loreta, não vejo a hora de te conhecer, precisamos ser apresentadas! como pode, já mudou a minh…

Sem TEMER, sem assustar, sem desanimar, sem desistir!

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Vou começar com a frase clichê que mais tenho usado recentemente pra descrever o momento que estamos vivendo, “são tempos difíceis para os sonhadores”, os sonhadores que defendem o público e o estado de bem estar social para a população, claro. Camaradas, não se assustem, não TEMAM, é apenas aquilo que Marx falou “a história de toda a sociedade até os nossos dias nada mais é que a história da luta de classes”. É a luta de classes! É a disputa entre projetos antagônicos que têm objetivos e faces distintas, que têm representantes e representados diferentes! 
Não ousemos desanimar, os nossos representados necessitam de nós, de nós que temos consciência de classe. Peço que não nos assustemos, não desanimemos e não desistamos, passamos por um período muito vitorioso onde não exploramos nossas contradições e muitas vezes as subestimamos como as alianças prioritárias, a consciência política do povo beneficiado pelas conquistas garantidas e principalmente o distanciamento da base, da luta de m…

por menos romantização nos sintomas da gravidez

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Isso aqui não é sobre Loreta, não é sobre uma criança em desenvolvimento dentro de mim e a magnitude que isso carrega, isso aqui é um protesto, é sobre um sentimento, sempre ouvi a expressão "romantização da gravidez" principalmente dos debates sobre o direito ao aborto, se trata desse endeusamento que fazem da gravidez como uma coisa sagrada e divina, aquilo que eu só ouvia falar pude sentir na pele desde que tornei pública a chegada de um bebê e olhe que nem cogitei possibilidade de abortar, Loreta apesar de não ter sido planejada, foi desejada e mesmo sem o peso de um hipotético aborto entendi a tal romantização da gravidez, pois vamos lá.
Comecei a perceber que não tinha nada de romântico quando meu apetite travou, os enjoos começaram aos poucos até o dia do primeiro vômito e depois não parou mais por semanas seguidas, enjoos, vômitos, fraqueza, indisposição, eu até tinha apetite, mas não conseguia comer praticamente nada, eu me sentia doente, não me sentia grávida. Como …

hasta luego, sarait

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Me recordo de todos os ataques quando foi criado o programa "Mais Médicos", acéfalos diziam que estávamos deixando de investir em médicos brasileiros pra dar dinheiro ao sistema socialista de Cuba e outros absurdos, esse discurso poderia até convencer quem não conhece a realidade da relação médicos x PSF, mas não a mim. É certo que as condições de trabalho em muitas unidades de saúde da família são bastante precárias, mas é verdade também que não é interessante pra muitos médicos serem da atenção básica, porque é muito tempo dedicado em um serviço só e tempo é dinheiro.
Tempos depois passei na prova de residência em Saúde da Família e assim que soube as unidades onde estaríamos alocados, soube que em uma delas a médica era cubana, me empolguei e quis ser desde já dessa unidade, a outra colega não fez questão de ficar lá e assim foi, fiquei vibrante com a ideia de estar perto de uma médica do programa, uma médica cubana, pensei que teria oportunidades de aprender e aprendi, ma…