Morreu. Acenderam a vela pra velar. Os vizinhos chegaram, os parentes distantes também. O caixão ficou na sala com os pés virados pra porta (acho que é por isso que dizem que faz mal dormir com os pés virado pra porta, isso é coisa de defunto). A viúva chorou, os filhos e os netos também, choraram, gritaram, morrer dói nos outros. Os filhos carregaram o caixão pelas ruas até o cemitério. Era um homem bom. (a gente vê pela quantidade de pessoas que acompanharam o enterro). Ele agora tá lá a sete palmos embaixo da terra. Eu acho bonito esses enterros de cidade pequena, quero ser enterrada que nem meu avô.
Tava pensando hoje que se eu pudesse "encomendar" alguém como a gente faz nos aplicativos de compras com opções de personalizar pedidos, incluir preferências, remover desagrados, o produto final seria você, exatamente assim, um combo perfeito com imperfeições de tudo que eu gosto, de tudo que me atrai, de tudo que eu quero ter por perto e sempre quis. Se tu não existisse e se pudesse, eu te encomendaria com toda certeza do mundo: com teus olhos bonitos e penetrantes, teu riso e tua risada, tua voz, tua presença dominadora, tuas ideias, tuas memórias, teus sonhos, tuas fantasias, teu compromisso, teu cuidado, tua disposição pra viver, tua doçura, tua inteligência, tua sabedoria, tua disponibilidade, tua safadeza, tu. E sem encomendar, planejar ou calcular, tu chegou, chegou em um pacote grande, transparente e fácil de abrir, sem arrodeio, virou presente e presença potente e permanente, presença que dá sentido, que sintoniza, que alegra, que cuida, que desmonta. Presente que ...
Comentários
Postar um comentário