Pular para o conteúdo principal

"Boa tarde..."

"Boa tarde" disse o homem que estava descarregando um caminhão de gás de cozinha enquanto me viu passar na rua, poderia ser um cumprimento cordial como qualquer outro vindo daqueles que tem educação, mas primeiro o que determinou o "boa tarde" é o fato de eu ser mulher, depois, eu tava sozinha, duvido muito que ele desejasse "boa tarde" se eu tivesse acompanhada do meu pai ou de um namorado, além de sozinha meu short era curto e minha blusa também, dava pra ver minha barriga, meu piercing no umbigo e minha tatuagem na cintura, poderia ainda ser de fato um cumprimento cordial, mas aquela entonação nojenta não me deixou dúvidas, foi um "boa tarde" escroto e nojento como a barba dele. 

Moço, talvez você ache que é exagero esse meu registro, moça, você deve estar me entendendo perfeitamente bem. Eu não fiquei calada, claro. Rebati o "cumprimento" ofensivamente, por que me senti ofendida e o mais importante, eu tinha condições de rebater, de xingar e se eu não tivesse? E se a rua fosse estreita e escura? E se ele tivesse mais próximo? E se ele quisesse me mostrar que tem força? E se ele quisesse me violentar? Eu pensaria em tudo isso e ficaria calada com medo. 

Eu quero liberdade pra todos e principalmente todas, eu quero as mulheres livres da intimidação, do constrangimento e do medo, eu quero homens que tenham consciência dos seus atos, palavras e cantadas, nada disso é pequeno. Eu não tive medo daquele homem por que eu pude rebater, mas e quando eu não puder? Tem "boa tarde" que tem o mesmo valor de uma encoxada no ônibus.

Homens e Mulheres, uní-vos!

Comentários

  1. O respeito e o altruísmo devem andar lado a lado. Infelizmente há quem confunda respeito com medo. Esse tipo de gente só teme quem respeita, e só respeita quem teme.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

o cronômetro da mãe solo

22:30 e ainda estou lendo agenda escolar (eu achava que hoje daria pra terminar a leitura daquele livro que eu queria tanto, mas hoje mais uma vez não deu, tento desde o ano passado), nela encontro além dos 10 trabalhos de casa para serem entregues nos próximos dias, mais uma demanda que precisa ser cumprida sob pena de eu ser condenada como uma mãe descuidada, afinal é só uma guloseima pra comprar e entregar na escola, coisa super simples. 22:30 e desde 05:30 não paro de cronometrar o tempo (assim como todos os dias), até 06:30 eu e todas as bolsas precisam estar prontas, mas nunca estão (são pelo menos 5 bolsas que precisam ser checadas todos os dias antes de sair, com vestimentas, refeições, acessórios, materiais de trabalho), 06:30 é hora acordar a princesa para ela estar pronta até 07:00 e ela nunca está, a meta é sempre sair pelo menos 07:15 e incrivelmente tem dias que eu consigo. No trabalho avalanche de demandas, mato todas no peito, sei fazer tudo, sou boa em fazer tudo que f...

das pessoas que inspiram vida e poesia

Na manhã do sábado passado vi nas redes sociais através do comandante Luciano Siqueira a notícia do falecimento de um militante do PCdoB, "Marco Albertim", senti profundamente pela sua partida, não que eu ache que a morte seja uma coisa ruim, ainda mais depois que soube como se deu sua partida, mas é que a morte é um fenômeno tão individual que causa isso na gente, uma estranheza danada. Pois bem, nunca o vi na minha vida, mas seu nome ficou registrado na minha memória quando li em 2013 a forma poética e única com que ele descreveu a cerimônia de posse da entidade que presido até junho deste ano, a UEP, intitulado de "O merecido convescote".  (leia aqui) Através de Siqueira também pude ler algumas linhas que o filho do camarada dirigiu ao pai e ele fala da sua "elegância narrativa", é exatamente isso, parecia que eu tava lendo um texto de um episódio antigo, ele usava adjetivos rebuscados e de fato, elegantes. E palavras bonitas por si só podem ser ao...

Venâncio

Venâncio surgiu na minha frente e imediatamente me fez sentir coisas, como um frisson tomou conta de mim, não sabia seu nome, seu endereço e sua procedência, nem pude ver seus olhos por conta da lupa escura que ornava o rosto, mas soube naquele instante que ele era bom. Nos encontramos. Pensei que fosse o início de uma história de amor, desejei que fosse, mas não foi, fomos nos desencontrando aos poucos. Pude então ficar livre para escrever outras histórias, várias, a maioria completamente inventadas para passar o tempo, vivi dramas, romances, decepções, paixões, cheguei até a pensar que tinha vivido a maior delas, cheguei até a ter um filho e mesmo assim nunca o perdi de vista, estava perto e muito longe também.  Vivemos distantes, desejei algumas vezes que a história que começou no nosso encontro ainda pudesse existir, resistir aos desencontros, as outras histórias, minhas, dele, mas o desejo parecia pecado, crime ou ilusão e então forçava o esquecimento, desistia como sempre. Se...