Pular para o conteúdo principal

o futuro depois da quarentena

Ninguém está bem, ninguém pode estar bem esses dias, mas precisamos ficar. Eu sempre odiei ir ao dentista, e me lembro que quando eu era pequena que tinha que sentar naquela cadeira que pra mim era assustadora, começava a pensar em sorvete, eu focava no sorvete e nada tirava ele dos meus pensamentos, era o meu mecanismo de fuga do incômodo de estar ali. Nesses dias caóticos que as notícias são as piores possíveis e as previsões de futuro são piores ainda, confesso que ainda não sei bem no que pensar pra fugir, mas tenho deixado de lado leituras, estudo, pequenas disposições em fazer uma comida básica ou assistir uma série legal, talvez seja a fuga que criei, paralisar e tentar não pensar em nada, ver as horas passarem na minha frente.

Essa fuga não é legal. E acredito que não estou sozinha nesse modo de operar na quarentena. E como ninguém pensa em nada, penso que na verdade tenho pensado em muita coisa, de pensamentos não se foge. E tento pensar sempre no depois, já que o presente é angustiante. A falta de coesão pra que todos nós possamos sustentar a quarentena como os especialistas recomendam, já está causando centenas de mortes no nosso país e a tendência é uma progressão devastadora. Falta coesão, mas falta muita coesão, como pode um chefe de Estado como o presidente ser tão irresponsável num momento como esse?

Ao povo falta consciência e condições, como quase sempre os faltou, elevação de consciência das pessoas e condições materiais sempre foi uma dívida histórica do Estado brasileiro com o nosso povo. E não vai ser agora, no meio da guerra, que vamos conseguir reparar isso da noite pra o dia. Nessa hora, os principais veículos de comunicação deveriam servir como grandes armas de combate ao COVID-19, usadas pelo aparelho do Estado, de forma clara, objetiva, agregadora, com propósito de orientar as pessoas, proteger e conscientizar, os jornalistas cumprem papel importantíssimo nesse momento, mas nos falta um/uma líder, que promova a união e a perspectiva de segura nacional necessária.

As faltas de condições é outro fator que conhecemos muito bem. Falta o poder a milhões de brasileiros e brasileiras de fazer ao menos três refeições diárias dignas e ter estrutura para realizar uma boa higiene pessoal. Essas são as condições básicas para ficar em casa, principal forma de prevenção do novo coronavírus. Essas também são as condições mínimas básicas de sobrevivência e dignidade para qualquer ser humano. Constatar que nos falta exatamente isso diariamente, deveria ferir profundamente aqueles que detém de alguma forma o poder de promover as reformas necessárias para a qualidade de vida do nosso povo. Não sei se os atinge, mas a mim, fere a alma.

Mais uma vez, o povo pobre, trabalhador, sem condições básicas de sobreviver, deve pagar a maior parte dessa conta. Tudo sempre evidenciará a luta de classes que nos move. Então sigo me perguntando, e depois mesmo sem ter muitas perspectivas do significa esse depois. O que será que fica depois com o que restar. O que terá impactado de forma maior na vida das pessoas? A dimensão que a pandemia dá a espiritualidade, as escolhas políticas, as relações pessoais, ao sentido da solidariedade, as lutas sociais, o autoconhecimento de cada um/uma? Qual dessas terá maior impacto na vida das pessoas?

Eu penso que se depois que essa tempestade passar, a maioria das pessoas enxergarem e levarem nas suas práticas de vida as questões que citei acima da mesma forma, humanamente a quarentena não nos serviu de nada, se nada mudar, será a expressão maior que não fomos capazes de assimilar as obviedades que estão postas, pelo menos bastante coisas são óbvias pra mim e para outras pessoas talvez nada seja, mas precisamos apontar sobre tudo e entender que o novo coronavírus desvende dos nossos olhos muitas coisas.

Desvende que direitos básicos como renda, moradia, alimentação, educação, saúde e saneamento devem ser garantidos a todas as pessoas, que precisamos de representantes do governo que entenda isso e priorize isso como uma política de Estado que está descrita na nossa Constituição e isso diz respeito as nossas escolhas na hora do voto. Desvende que precisamos de investimentos maciços em ciência e tecnologia, incluindo nisso a valorização daqueles e daquelas que fazem pesquisa dentro das instituições públicas, para que essas pessoas tenham melhores condições de descobrir vacinas, medicamentos, ou qualquer outra forma de frear qualquer doença que venha a existir.

Desvende que precisamos fortalecer o Sistema Único de Saúde, o SUS, e prepará-lo em infraestrutura e recursos humanos para qualquer ameaça sanitária que possa nos acometer. Desvende que todos nós precisamos respirar e olhar pra dentro de vez em quando já que na correria do dia dia a gente ignora tanto essa necessidade básica humana que é a conexão com você mesmo, dos pés a cabeça, corpo, mente e alma. Desvende que as redes de solidariedade devem ser um exercício permanente, porque se a gente parar pra olhar e ouvir mais, sempre vamos encontrar alguém que possamos oferecer algum conforto, que pode ser material ou não.

Desvende que precisamos ter saúde, ter uma boa alimentação, combater o sedentarismo e fazer exercícios físicos diários e boas práticas de estilo de vida, como o combate ao tabagismo e ao alcoolismo. Desvende quem importa na sua vida, quem faz falta, quem tem valor, e com quem você deve celebrar ela porque apesar de tudo, estar vivo é um grande presente. E assim como todo mundo, quero os meus vivos depois de tudo isso, pra poder ver a vida de uma forma melhor, uma vida bem diferente de antes. Tenhamos fé nessa nova vida que pode surgir depois da tempestade, tenhamos fé nas pessoas e no futuro.

Mas agora se some a luta, seja exemplo de consciência, fique em casa, ajude a conscientizar outras pessoas, ajude alguém, mandem boas energias para os que estão lutando para sobreviver, da doença ou da vida.



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

o cronômetro da mãe solo

22:30 e ainda estou lendo agenda escolar (eu achava que hoje daria pra terminar a leitura daquele livro que eu queria tanto, mas hoje mais uma vez não deu, tento desde o ano passado), nela encontro além dos 10 trabalhos de casa para serem entregues nos próximos dias, mais uma demanda que precisa ser cumprida sob pena de eu ser condenada como uma mãe descuidada, afinal é só uma guloseima pra comprar e entregar na escola, coisa super simples. 22:30 e desde 05:30 não paro de cronometrar o tempo (assim como todos os dias), até 06:30 eu e todas as bolsas precisam estar prontas, mas nunca estão (são pelo menos 5 bolsas que precisam ser checadas todos os dias antes de sair, com vestimentas, refeições, acessórios, materiais de trabalho), 06:30 é hora acordar a princesa para ela estar pronta até 07:00 e ela nunca está, a meta é sempre sair pelo menos 07:15 e incrivelmente tem dias que eu consigo. No trabalho avalanche de demandas, mato todas no peito, sei fazer tudo, sou boa em fazer tudo que f...

Venâncio

Venâncio surgiu na minha frente e imediatamente me fez sentir coisas, como um frisson tomou conta de mim, não sabia seu nome, seu endereço e sua procedência, nem pude ver seus olhos por conta da lupa escura que ornava o rosto, mas soube naquele instante que ele era bom. Nos encontramos. Pensei que fosse o início de uma história de amor, desejei que fosse, mas não foi, fomos nos desencontrando aos poucos. Pude então ficar livre para escrever outras histórias, várias, a maioria completamente inventadas para passar o tempo, vivi dramas, romances, decepções, paixões, cheguei até a pensar que tinha vivido a maior delas, cheguei até a ter um filho e mesmo assim nunca o perdi de vista, estava perto e muito longe também.  Vivemos distantes, desejei algumas vezes que a história que começou no nosso encontro ainda pudesse existir, resistir aos desencontros, as outras histórias, minhas, dele, mas o desejo parecia pecado, crime ou ilusão e então forçava o esquecimento, desistia como sempre. Se...

às vésperas de loreta

O aumento da frequência e intensidade das dores no meu ventre, minhas costas e minhas pernas anunciam a proximidade da tua chegada, é de uma indizível emoção o fato de existir um bebê dentro de mim prestes a vir ao mundo, até um dia desses não tinha nada, além de um órgão oco e agora loreta. É o milagre da vida, meus amigos, já pensaram com profundidade sobre ele? É de encher os olhos de lágrimas e não entender muito bem como isso acontece, apesar de todas as explicações da ciência. E fico nesses dias que te antecedem a imaginar: qual dia vai escolher pra nascer? quantas horas de dor eu vou passar até conseguir te ver? careca ou cabeluda? pretinha ou branquinha? já vem com dobrinhas? e como vão ser as bochechinhas? vai ter choro gasguita, irritante e desesperador ou vai chorar que nem boneca? e os olhos? como vão ser teus olhos? vou me apaixonar de imediato? vamos nos conquistar aos poucos? loreta, não vejo a hora de te conhecer, precisamos ser apresentadas! como pode, já mudou a minh...